Da Maria Flausina.

Como já referi, a minha mãe esteve doente. Tomou Xanax durante muitos anos, parou abruptamente. Como diz o meu pai "a primeira tolice foi ter começado, a segunda foi ter deixado assim", mas as coisas são como são e temos de lidar com a realidade.


A coisa descambou de maneira que a minha mãe teve alucinações. Esteve três dias e três noites sem dormir, pois tinha medo de que a matassem.
Na Quarta-feira, dia 4, liguei à minha chefe às 7 e pouco da manhã. Ao meio-dia estava num avião a caminho da Terceira. O meu objectivo: Tratar da minha mãe.


Ela foi com a minha irmã ao aeroporto. Depois de tanto tempo com alucinações, percebi que ela não me queria cumprimentar com medo de que eu fosse apenas mais um episódio alucinatório. Sorriu apenas. Aquela não era a minha mãe. Estava tão magra!


Fomos directas para o hospital. O psiquiatra já estava a par da situação. Pelo caminho percebeu que era mesmo eu. Começou a chorar, pois sabia que eu estava ali para levá-la para o hospital. Isso partiu-me o coração.


Ela fez análises (que estavam bem) e um TAC para excluir todas as causas possíveis. Diagnóstico: Síndrome de abstinência do Alprazolam.


Tinha duas hipóteses: Ficar internada na Psiquiatria ou ficar internada no serviço onde trabalhava antes de se reformar. Por mais incrível que pareça, quis mesmo ficar internada. "As minhas filhas fizeram a sua parte, agora eu tenho de fazer a minha". Olhei para a minha irmã com cara de quem ia ter uma coisinha má: Nunca esperei ouvir aquela conversa!


Fui com ela para o serviço. Ajudei-a a comer e a lavar os dentes. Os tremores eram incontroláveis.


Na noite de Quarta para Quinta teve de ser sedada. A agitação era tanta que andou debaixo da cama, deu pontapés nos colegas e atirou o telemóvel para o chão.


Chamaram o psiquiatra que tratou de a pôr a dormir: 17 horas seguidas de sono. Estava exausta.


Ao fim de 17 horas de sono (sem responder a estímulos tácteis nem verbais) deu sinal de vida. Dei-lhe comida e voltou a dormir. Isto repetiu-se até ao dia seguinte.


A colega pôs soro para não desidratar. É tão má a picar pessoas que a dor provocada foi o único estímulo a que a Maria Flausina reagiu.


No dia 6 estava melhor. Fomos à consulta e o psiquiatra receitou uns comprimidos para atenuarem os efeitos da absitinência do Xanax: Diplexil de manhã e ao jantar, morfex ao deitar e olanzapina em caso SOS. Graças a Deus, nunca foi preciso a olanzapina!


Fomos para casa e eu tinha indicação para vigiá-la na semana seguinte. Correu tudo bem, felizmente.


No dia 14 de Fevereiro, regressei ao Pico. Trouxe-a comigo. Convenci-a porque, quando a Flausina teve a convulsão e caiu, fez uma pequena fractura numa costela. Como não podia fazer esforços, não lhe convinha estar ao pé dos miúdos.


Passou uma semana aqui. Tratei dela como se de um filho se tratasse. Regressou no Sábado a casa. Hoje foi ao hospital para saber que médico passará a acompanhá-la, uma vez que o psiquiatra que a tratou faleceu entretanto.


"Sabes quanto peso ganhei na semana que estive em tua casa? 5 Kg!"


Sorri e incentivei-a a manter a dieta equilibrada que fez cá em casa.


Passados cerca de 20 dias, a Flausina dorme bem, tem apetite, não tem alucinações e continua a responder muito bem à medicação. E isso enche-me de felicidade!

Comentários

  1. Uma grande mãe e uma grande filha!
    Que orgulho de ler!
    ***

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  2. eu tive síndrome de abstinência do alprazolan. não tão grave. nem de longe nem de perto. mas sei bem o que ela passou. força. vai ficar tudo bem.

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  3. Obrigada.
    Felizmente as coisas estão a melhorar.

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  4. a continuação das melhoras, que tudo corra pelo melhor e beijinhos

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  5. Irra! Que complicação. Ainda bem que está a correr bem, e que assim continue. 
    Agora invertem-se os papeis.

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  6. Temos de cuidar de quem cuidou de nós.

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  7. Ainda bem que a tua mãe já está a melhorar! Os pacientes deviam ser bem informados acerca do perigo de suspender subitamente as benzodiazepinas, para evitar este sofrimento... 
    Rápidas melhoras para ela! Pelos vistos, está no bom caminho! :D

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  8. Está a recuperar bem, sim. E agora está devidamente acompanhada em termos clínicos, o que é inédito na vida da Maria Flausina!
    No caso dela não foi falta de informação, foi excesso de confiança...Mas já passou 

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