Das touradas - E da mentalidade dos aficionados

Li no Jornal I um texto pró-tourada.
Confesso que são esses argumentos que me põem a pensar como é possível tanta ignorância numa era em que temos mais acesso do que nunca à informação.

"Há séculos que os povos latinos lutam com o touro na arena, havendo uma enorme indústria que envolve o espetáculo. Se não existissem as corridas, os touros bravos há muito que teriam desaparecido, pois ninguém os criaria apenas por diversão. Além disso, para muitos são uma arte, à semelhança do boxe, e não devem acabar por decreto."

Adoro o argumento da tradição e cultura. Se é para levar isto a sério, vamos lá mudar umas coisinhas:

1) A partir de agora só vota quem paga IRS. Não há cá paneleirices de "Ah, mas eu estou desempregado por isso é que não pago". Não me interessa. É sabido por todos que antigamente só elegia representantes quem pagava. Faz sentido, claro. E como o senhor diz, essas coisas não devem acabar por decreto.

2) Acabo de decidir que quero a escravatura de volta. Sim, agora que vou ser mãe, dá-me jeito ter alguém que trabalhe de sol a sol a troco de um papo-seco e um copo de água. Além disso, como era prática, as escravas devem servir os senhores e, caso alguma tenha o atrevimento de engravidar, cortamos os mamilos para não poderem alimentar os bebés. Como diz o senhor, essas coisas não devem acabar por decreto.

(Que giro! Assim os miúdos aprendem muita coisa sobre a cultura portuguesa!)

3)Não há mais liberdade religiosa. Mesquitas ao chão, já! Esses extremistas que só nos levam para o caminho do Satanás. E os Jeovás a mesma coisa. Sempre a bater em portas alheias. Não senhor, nem pensar. A partir de agora ou bem és católico apostólico romano, ou viras churrasco em praça pública.

Perceberam a estupidez do argumento da cultura e tradição? Óptimo, passemos ao próximo.

"Choca-me muito mais ver as novas modalidades marciais, em que vale quase tudo, como foi o caso do português que morreu no célebre combate de Artes Marciais Mistas (MMA). Mas como envolvem pessoas, nunca vi um movimento a querer o seu fim. "

Bom, eu tenho a terrível mania de pensar que as pessoas são dotadas de razão e, por isso, escolhem o que querem fazer. Pelos vistos, este senhor acha que somos todos burros. Quero deixar bem claro que pratico um desporto de combate por livre vontade e, ao contrário dele, tenho neurónios que realmente funcionam.

"Nas próximas semanas, o assunto chegará à Assembleia da República e alguns partidos vão tentar proibir a transmissão televisiva na RTP das corridas de touros. Também os menores de 18 anos ficarão proibidos de assistir a tal espetáculo se a proposta for aprovada."

Acho muito bem que se proíba a transmissão de touradas na RTP. Se há cada vez menos pessoas a assistir às touradas, por que motivo deve o Estado - que somos todos nós - promover estes espectáculos de tortura na televisão estatal?

"Mas faz algum sentido o Estado meter-se na vida privada das famílias? Se há miúdos que crescem nesse meio, que nas suas herdades praticam a modalidade, depois não poderão assistir ao espetáculo?"

Ok, sim senhor. Convenceu-me. A partir de agora ninguém (nem mesmo o Estado) deve intrometer-se na esfera privada das famílias. Cada qual faz o que quiser. Já sabem que se me ouvirem espancar o meu marido, não devem ligar para a polícia. Era só o que mais faltava, da minha porta para dentro mando eu!

(A partir de agora ignoramos o que passa na casa dos vizinhos)

"Deixem a história em paz e dediquem-se ao que é importante."
Já falámos da cultura e tradição. Não tenho mais nada a acrescentar.

Comentários

  1. Miss, a minha formação académica fez-me pensar imenso em opinar sobre este assunto. Sou formada em Sociologia, supostamente o povo identifica-se com os hábitos.
    Neste caso e naqueles que mencionaste, e agora falo como ex vítima de violência doméstica, determinadas coisas devem mudar. Para mim, era acabar mesmo com o dinheiro dos toureiros, ficarem pobres. Ou mortos. Matar animais não é cultura, é violência e crime. Está dito, crime, se a RTP coaduna com um crime, estamos mesmo muito mal.

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    Respostas
    1. Usei o exemplo da violência doméstica para contrapor a tese de que o Estado não pode intervir na vida familiar dos cidadãos. É ridículo, pode e deve - em certos casos, claro.
      Os aficionados escudam-se no argumento da tradição e da cultura, mas a minha formação (Relações Internacionais) ensinou-me que o contacto entre povos contribui para a evolução das mentalidades. Sim, há muitos anos que andamos a maltratar touros, mas já é altura de pôr termo a esta crueldade.
      E se tivermos em conta os sacrifícios que nos foram impostos pelo Governo nos últimos anos, não podemos aceitar que o Estado atribua subsídios para criação de touros para touradas, como tem feito até agora. Quanto à transmissão de touradas na RTP, a televisão pública já mostrou ser capaz de produzir conteúdos de qualidade, pelo que não há motivo para regredir.

      Bj*

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