Ir à Universidade é quase como ir à tropa

Numa altura em que se fala de colocações no ensino superior, achei por bem escrever sobre a minha ida para a Universidade.
Para começar, quero deixar bem claro que só me candidatei a um curso numa universidade. Comigo é assim: Ou vai, ou racha. Tive mais sorte que juízo. As más línguas dirão que só entrei porque era privada.
Em Setembro de 2005 lá fui eu com a minha mãe para Lisboa. Era preciso fazer inscrição, tratar da casa, comprar livros e mais uma data de coisas.
Tratámos de tudo em tempo recorde e, no primeiro dia de aulas, lá fui para a escolinha dos grandes. 

1º dia:
Fui mais cedo para procurar a sala. Mesmo assim, consegui a proeza de me perder e, por isso, chegar atrasada à primeira aula. Introdução à Economia. Mal sabia eu que ia desistir da cadeira e só voltar a olhar para ela no último ano de curso.
Quando entrei na sala assustei-me: Vi barbies, um motoqueiro, muitos marrões e malta mais velha. Sentei-me sozinha num cantinho e rezei - uma boa estratégia, tendo em conta que estudei na Católica - para que a aula terminasse depressa. Surtiu efeito, já lá vão mais de 10 anos.
Tive mais aulas, apresentei-me inúmeras vezes e em todas elas tive de explicar que aquele sotaque estranho não é açoriano, mas sim micaelense. Sim, cada ilha tem o seu sotaque.
Terminadas as aulas, fui para casa (alugada) para debaixo das saias da minha mãe.
Mas durou pouco tempo, pois nesse dia ela regressou à Terceira. Fiz-me de forte (ah valente!), mas assim que ela saiu desatei a berrar. Valeu-me o camelo do meu ex que nessa noite ficou comigo. Sempre serviu para alguma coisa.

Os colegas:
Ser açoriano a estudar no continente é o mesmo que ter 3 cabeças e 5 braços: As pessoas olham para ti com curiosidade, mas parece que têm medo de te abordar. Mas ao fim de alguns dias, a malta quebrou o gelo e começou a socializar.
"Onde estudaste? Eu venho do Saint Julian's", dizia uma. Outro tinha andado no Colégio Alemão ou o caraças. Eu? Escola Secundária Padre Jerónimo Emiliano de Andrade. Não pensem que é uma coisa pomposa, tratava-se do único liceu de Angra do Heroísmo (na altura). Ou ias para lá, ou tinhas de ir para o outro concelho. Desculpem lá a desilusão.
Com o tempo fiz algumas amizades que duraram até ao final do curso. Fiz também amizade com uma rapariga (com quem cheguei a partilhar casa) que durou até ao último ano de universidade. Foi nessa altura que descobri que falava mal de mim pelas costas. Nada que não tenha ultrapassado, mas achei que devia ser mencionado.

O resto:
Bom, o resto é o resto. Muitas noites a estudar, muitas aulas chatas, outras tantas divertidas. Correr atrás dos autocarros, ir às compras a pé e beber vinho barato. Tornei-me especialista em contar trocos, troquei o SG Ventil por tabaco de enrolar (Santa Pobreza!) e passei a beber cerveja em vez da vodka red bull.
Partilhei casa com dois brasileiros, um alentejano, uma portuense e uma espanhola. Todos os dias chegava a casa e aquilo parecia um intercâmbio. Mas era divertido, ó se era!

Olhando para trás, foram tempos divertidos apesar das dificuldades. Ser estudante universitário é duro. Quando estamos longe de casa é ainda mais complicado. Mas sobrevive-se e no fim até começamos a gostar dessa nova vida. 
Caloiro, aproveita bem que esta experiência é única.


Comentários

  1. Nada a ver com a tropa, he,he,he.
    Fui para o Regimento de Infantaria 15 (na altura Brigada especial independente)ainda hoje ninguém me tira da cabeça que o especial era referente à inteligência dos graduados, 2 furrieis paraquedistas e 1 alferes dos comandos.
    O meu Pai sempre disse..."não sejas o mais burro nem o mais inteligente, no meio de gente de palas convém andar ao lado".
    1ºdia-exercício + exercício + porrada no lombo, a malta vinha de todos os extractos sociais e tinha desde um açoriano das Flores a um de Chaves.
    Agora sim vem a comparação com a universidade como tu tão bem explicas, quando sai do RI.15 fui então para a Academia Militar e aí sim assemelha-se em parte, a diferença é que os quartos eram divididos por 20, o vinho era do Pão de Açucar(sim na minha altura ainda não havia esta mariquice do Jumbo), a comida da Academia essa era muito boa (pelo menos em relação à porra da recruta), noites a estudar e de serviço e muitas saídas para a discoteca Lido (era a puta da loucura).
    Malta a falar mal nas costas era um habitue, até porque os militares são piores que as beatas em dia de missa na aldeia.
    Experiência única, que voltaria a fazer de boa vontade, foram anos fantásticos, apesar das dores e nódoas negras.
    Cumps do Estúpido

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    1. O trauma de um caloiro é semelhante ao de um recruta.
      O meu marido gostou tanto da recruta que aguentou uma semana!

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  2. Pois a mim querida, deram-me um belo carro, dinheiro para a dita casa alugada, farnel apra uma semana e fui sozinha do Algarve para Lisboa. Aprendi a conduzir em Lisboa em três tempos, faculdade privada, ai de quem me tocasse para praxar, sotaque sim, mas fui perdendo, nunca faltei às aulas, afinal não andava a gastar quase 600€ mes para passear mas quando arranjei um boyfriend que saía à meia noite, ia com umas olheiras às aulas das 8h...
    Pior que me aconteceu, ao terceiro dia d«fomos ao Comobo, era dia de jogo:, a colega que ia comigo no carro Às tantas diz: " Esta pink , não percebo, estás cá há 3 dias e há conheces os cabrões e os FDP todos da 2ª circular."...

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    1. Quem pode, pode. Tu andavas de carro e eu no 65 (de casa até ao Colombo) e ou no 64 (até à Católica) ou de metro até Sete Rios. Gente pelintra é assim ;)

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  3. Prontes, sinto-me beilha: entrei em 2003 :/

    E acho que tratei bem a minha colega açoriana do Pico... ela pelo menos diz que sim :p cof cof

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    1. Eu entrei em 2005, também estou a ficar velha!
      Colega do Pico, de que Concelho?

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